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Sem entrar no mérito dos debates da sessão extraordinária do STF nesta terça-feira (15), testemunhados publicamente pelo povo brasileiro, gostaria de propor uma reflexão hermenêutica que considero oportuna.
Chamou-me a atenção a alegação do ministro Alexandre de Moraes, ao contestar a conclusão de que prints de textos do aplicativo Notas do iPhone do banqueiro investigado Daniel Vorcaro correspondessem a mensagens enviadas a ele pelo WhatsApp. Seu argumento estabelece uma distinção importante: a existência de um registro não prova a interpretação desse registro.
Não tenho motivação para julgar a veracidade das suas alegações, pois não ocupo essa condição. Meu interesse aqui é estritamente hermenêutico, por se tratar da minha formação acadêmica.
Um fato existe independentemente de nossa capacidade de demonstrá-lo. Ausência de evidência não equivale à evidência de ausência. Confundir essas categorias produz o erro de fazer a realidade depender daquilo que conseguimos provar sobre ela.
Esse princípio tem implicações para a interpretação e a teologia bíblicas. O intérprete não cria o fato ao interpretá-lo, nem pode exigir que a Escritura responda às condições que previamente estabeleceu para aceitá-la. Sua tarefa é compreender corretamente aquilo que o texto afirma, considerando sua linguagem e contextos.
A hermenêutica bíblica começa, portanto, com uma submissão epistemológica: o texto precede o intérprete e possui sentido antes que o leitor formule seu juízo sobre ele. Quando Jesus declarou: “a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), essa verdade não depende de quem a lê.
Diante das Escrituras, não devemos perguntar se encontramos evidências suficientes para que Deus esteja certo, mas se interpretamos corretamente as evidências que ele decidiu revelar.
A incredulidade do intérprete não transforma verdade em hipótese. Pode haver dificuldade na interpretação da evidência, mas o fato revelado permanece verdadeiro. Por isso, a boa hermenêutica não julga a Palavra a partir do intérprete, pois ela submete o intérprete à Palavra.
Rev. Ericson Martins








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