
Me sinto constrangido quando ouço: “fui contratado apenas para pregar”. Esta afirmação parece proteger a centralidade do púlpito, mas serve de abrigo para muitos pastores que se escondem dos efeitos das suas pregações na vida das pessoas, além de revelar uma compreensão reduzida e distorcida do ministério pastoral. Pregar é tarefa primordial do pastor e jamais deve ser negligenciada. O problema é quando esta verdade se torna argumento para se manter afastado daqueles que deveria conhecer e cuidar de perto.
O testemunho do Novo Testamento ensina que pastorear não é uma atividade limitada à exposição pública da Palavra. O apóstolo Paulo, por exemplo, disse que não deixou de “anunciar coisa alguma proveitosa e de… ensinar publicamente e também de casa em casa” (At 20:20). Pouco depois, ele descreveu que o pastoreio não se conciliava com distanciamento ou frieza: “noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um” (At 20:31).
O apóstolo Pedro ordenou que os presbíteros, incluindo os pastores, pastoreassem o rebanho de Deus, com proximidade suficiente para servir de exemplo aos que lhes foram confiados (1Pe 5:2-3). O próprio Jesus descreveu que o bom pastor é aquele que conhece as suas ovelhas (Jo 10:14) e ordenou que Pedro cuidasse delas (Jo 21:15-17). Conhecer, nesse contexto, não significa apenas saber seus nomes, mas cuidar pessoalmente delas.
Por isso, é repreensível quando um pastor prepara e prega sermões, mas permanece distante dos membros, satisfeito com a sua acomodação conveniente. João Calvino reprovava essa conduta quando escreveu:
“O que quer que os outros pensem, não consideramos nosso cargo como algo dentro de limites tão estreitos como se, quando o sermão estiver terminado pudéssemos descansar, como se a nossa tarefa tivesse terminada. Aqueles cujo sangue será requerido de nós se os perdermos por causa de nossa preguiça, devem ser cuidados muito mais de perto e de modo mais vigilante” (CALVINO, Genebra e a Reforma, p. 147).
Há algo errado quando um pastor evita e terceiriza visitas porque as considera secundárias, ou quando delega sistematicamente o aconselhamento, o discipulado pessoal ou em pequenos grupos para não interromper sua rotina de estudos.
O púlpito não pode ser esconderijo daqueles que precisam ser ouvidos de perto. Ele é central no ministério pastoral, contudo o pastor não foi chamado apenas para discursar, mas também para se importar e se relacionar com as ovelhas.
Rev. Ericson Martins
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