“...a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Coríntios 3:5-6)
Já se tornou comum, em alguns círculos denominados evangélicos, o desprezo pelas Escrituras sob o argumento de que o que nos falta é uma experiência sobrenatural com o Espírito Santo. É cada vez mais frequente a ênfase na experiência em detrimento do ensino, quando ambos deveriam estar equilibrados. Essa ênfase no sobrenatural tem resultado em cristãos com pouco conhecimento da verdade bíblica. Alguns chegam a se defender dizendo: “a letra mata, mas o espírito vivifica”. Mas, afinal, o que Paulo quis dizer com essa afirmação?
Em 2Coríntios 3:5-6, o apóstolo Paulo afirma que a suficiência do ministério cristão vem de Deus e que a nova aliança é obra do Espírito, não da letra. Essa declaração tem sido, muitas vezes, usada para justificar o desprezo pelo ensino bíblico, como se a experiência espiritual pudesse substituir o conhecimento das Escrituras. Essa leitura é equivocada e contrária à intenção do texto.
Paulo não opõe a Bíblia ao Espírito Santo, mas a antiga aliança, marcada pela condenação da Lei, à nova aliança, marcada pela vida em Cristo. A Lei, por si mesma, revela o pecado e condena o pecador, pois ninguém é capaz de cumpri-la plenamente (Rm 3:19-20, 23). Nesse sentido, ela “mata”, porque expõe a culpa e não oferece poder para a obediência. Já o Espírito “vivifica”, porque aplica ao coração a obra consumada de Cristo, concedendo perdão, nova vida e disposição para servir a Deus.
Ao contrastar tábuas de pedra com corações humanos, Paulo mostra que o problema não está na Lei, mas no homem. A nova aliança não anula a Lei, mas testemunha o seu cumprimento em Cristo (Rm 3:21-22). Abandonar a graça e tentar alcançar justiça por meio da Lei é retornar à morte espiritual (At 13:39; Gl 2:21). A verdadeira vida cristã nasce da confiança no que Deus fez em Cristo e da ação do Espírito, que ilumina o entendimento da Escritura e conduz à obediência.
Portanto, a expressão “a letra mata, mas o espírito vivifica” não autoriza o desprezo das Escrituras, mas denuncia o legalismo e a autossuficiência. O conhecimento da Palavra, quando separado da fé em Cristo, produz condenação. Porém, quando unido à obra do Espírito, torna-se instrumento de vida, santificação e esperança.
A essência da Palavra de Deus é a ação transformadora do Espírito, que nos leva a viver segundo o testemunho de Cristo. Assim, podemos servir com confiança e humildade, sabendo que a nossa suficiência não vem de nós, mas do Espírito que nos conduz na nova vida em seu Filho.
Rev. Ericson Martins
















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