Na experiência da fé cristã muitos convivem com uma tensão silenciosa. Sabem que foram perdoados em Cristo, mas percebem que ainda pecam. Surge, então, uma dúvida prática e pastoral: se a culpa eterna foi removida, por que a confissão diária continua sendo necessária?
Na Primeira Epístola de João, o apóstolo escreveu a crentes que já tinham professado fé verdadeira, mas estavam sendo influenciados por ensinos que minimizavam o pecado. João organizou sua argumentação em torno do contraste entre luz e trevas. Andar na luz não significa perfeição moral, mas viver sem autoengano diante de Deus. É nesse contexto que ele declara, em 1João 1:9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.”
O foco do texto não é a justificação, mas a comunhão. João já deixou claro que negar o pecado, inclusive o mantendo escondido, é mentir contra a verdade de Deus (1Jo 1:8), porque o pecado remanescente continua sendo uma realidade na vida do crente (Rm 7:7-25) e, quando não reconhecido, exposto e tratado, como um câncer, ele avança na corrupção da experiência saudável de comunhão com Deus e com a Igreja.
A confissão não reabre a questão da condenação; ela restaura a consciência e os relacionamentos ofendidos pelo pecado pessoal. É assim que o crente fortalece a comunhão com Deus e com seus irmãos na fé, porque Deus é fiel para cumprir sua promessa e justo para conceder o perdão, o qual se fundamenta na obra consumada de Cristo, não no mérito humano.
Quem anda na luz não relativiza o pecado nem se esconde dele, mas o enfrenta com arrependimento verdadeiro e confissão, como atos de fé e humildade. Este prefere descansar a sua confiança na graça de Deus a viver acumulando culpas, mágoas e relações quebradas. Assim, a comunhão é preservada, e a consciência permanece sensível diante da Palavra de Deus.
Rev. Ericson Martins

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