
A traição é devastadora, em todos os aspectos. Ela quebra a confiança e gera a amargura que, quando acolhida, passa a governar a memória e a comunhão cristã. Por isso, ela precisa ser sabiamente exposta para ser tratada, a fim de promover saúde espiritual.
Em Mateus 26:20-25 lemos que Jesus celebrava a Páscoa com os seus discípulos, quando disse: “Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá” (v. 21). Esta afirmação expôs a fragilidade humana, capaz de firmeza e de queda, nos alertando a desconfiar mais de nós mesmos do que das aparências alheias. A reação de tristeza dos discípulos não foi mero drama, foi consciência, e um a um perguntou: “Porventura, sou eu, Senhor?” (v. 22).
Jesus, então, respondeu com clareza perturbadora: “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá” (v. 23). Sabendo que seria traído por um dos seus companheiros, não se entregou ao ressentimento, mantendo suas emoções firmes e sóbrias. E, ao afirmar que o Filho do Homem vai “como está escrito” (v. 24), expôs diante de todos duas realidades, a gravidade da culpa humana e a invencibilidade do propósito de Deus, pois nada impediria de cumprir a sua missão redentiva, nem mesmo a grave quebra de confiança e ofensa de um dos seus seguidores.
Nesse contexto Judas perguntou: “Acaso, sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste” (v. 25). Ele perguntou, mas não com verdade, e sim, com performance calculada, revelando que o pecado pode conviver com sinais externos de piedade sem rendição real. A resposta de Cristo não foi irônica, mas um diagnóstico. Ele revelou a realidade de Judas e deixou claro que não há neutralidade diante dele.
A traição é uma ofensa alheia, mas a amargura é a decisão de permanecer preso a ela. Por isso, somos exortados a nos posicionar com verdade, pois não podemos viver em ambiguidades, como se fosse possível sofrer, ferir ou ocultar intenções sem assumir uma resposta diante de Deus. Se fomos feridos, busquemos a reconciliação; se ferimos, busquemos o perdão. Diante de Cristo, não há neutralidade.
Rev. Ericson Martins
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