Por Que Exímios Líderes Deprimem ? 3



PARTE 3


       Não há nada mais oprimente que a supressão da alma, dos sentimentos. Não há nada mais degradante que ter de esconder o que faz mal à felicidade de viver consciente da sua filiação à Deus (Salmos 32, 36:1-2, 38:1-9, 51). Infelizmente, é absolutamente comum para a cristandade a lei do silêncio quanto aos sentimentos e pensamentos mais contrários para a Fé enquanto mais autênticos e que ocupam o interior de cada cristão. Por isto, o comportamento precisa ser moldado não com base nos princípios verdadeiros do Evangelho que realmente libertam o interior do homem dos vícios doentios que o consome, mas para satisfazer opiniões humanas que não passam de tradições convenientes de determinado grupo. Esta fórmula definida de espiritualidade pelo uso de mordaças intelectuais e sociais, em nome da paz comunitariamente interessada em defender as aparências, tiram do homem a liberdade necessária de descortinar o que se passa em seu coração. Alguns evidentes líderes evangélicos arriscam dogmatizar a Igreja ensinando que crente espiritualmente saudável não sofre, não adoece, não experimenta pobreza, não fracassa e não vive entre a pobreza, sob a chantagem de serem denunciados ou por supostas maldições, ou pecados ocultos, ou por conformidade espiritualmente medíocre.

       Um ambiente que não considera necessária à cura espiritual e moral a exposição verdadeira da consciência sobre pecados, que não promove a autenticidade interior e do comportamento mesmo quando ela é escandalosa, que não permite confessar o prazer no mal, na vingança, na libertinagem, na ambição financeira, na licenciosidade teológica, sem dúvida não deve ser capaz de perdoar. Isto é assustador. É terrorismo psicológico. Não poder confessar pecados, expor sua frustração, seus fracassos torna a melhor alternativa para viver em paz com os outros, menos consigo mesmo.

       O pecado atingiu todos os homens, principalmente quem não se considera pecador. Por ser pecador, o homem, quando assume uma liderança, torna visível sua real condição diante de Deus através dos relacionamentos. O relacionamento uns com os outros é a forma visível daquilo que constitui espiritualmente o homem. Para as Escrituras, é incoerente dizer amar a Deus, relacionar com Ele, a quem não vê e odiar o irmão a quem se vê (1 Jo. 4:20); ora, irmão é quem está sempre por perto nos relacionamentos humanos. Como já foram mencionadas na reflexão anterior, nossas complexas maneiras de liderar juntamente com penumbras do coração e tantas indignas formas de lidar com vocação ministerial, demonstram o quanto somos pecadores e cotidianamente carecedores da misericórdia de Deus. Por isto, invertemos prioridades, ofendemos, enganamos, manipulamos, deprimimos, desviamos verbas, omitimos o que não deveria, deixamos de fazer o bem aos outros para satisfazer o nosso bem ... Só Deus pode nos curar destas inclinações nocivas.

       Gostaria de apresentar neste texto o que as Escrituras Sagradas propõem para os problemas levantados e também relacionar suas verdades ao exercício da liderança :


01. Admita sua real condição diante de Deus e confesse seus pecados, ou como preferir : seus equívocos.

A tentativa de provar santidade moral e espiritual é relativamente interessante; contudo, a Bíblia não nos autoriza admitir não termos pecado, e ao fazê-lo "a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós" (1 Jo. 1:8, 10), mas admitir esta condição (vv.9, 11) é admitir a necessidade de cura, é demonstrar humildemente o quanto se depende de Deus sobre tudo o que é e faz da sua vida. A Bíblia diz que "a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda" (Pv. 16:18). Ao admitir suas culpas para Deus você se previne do mal que elas te fazem.

       A palavra usada no A.T. para "confessar" é também o verbo yādâ (Lv. 5:5, 16:21, 26:40; Nm. 5:7; Ne. 1:6, 9:2; Sl. 32:5 ...). Este verbo é muito usado para traduzir "conhecimento" que distingue um objeto, pessoa ou conhecimento de outro, familiaridade entre pessoas, reconhecimento de honra, canto de louvor, intimidade nos relacionamentos e relação sexual. Também tem o sentido de "lançar". Quando alguém transgredia uma lei, era apresentada publicamente sob a denúncia do seu pecado e então, "lançavam" pedras contra o indiciado até a morte como punição. Confessar pecado implica em lançar "pedras" contra si mesmo, ou seja, culpar a si mesmo. De modo algum se confessa pecado apontando justificativas ou explicações bem elaboradas como tentativas de minimizar o peso de ter praticado algum pecado. Diante de Deus, tal confissão deve ser sincera e transparente. Ainda que Ele conheça todas as palavras, antes que elas saiam de sua boca (Sl. 139:4), confessar é um processo de cura que Ele normatizou.

       O pecado, enquanto oculto, cresce e consome seu portador. Enquanto a árvore é apenas um pequeno ramo facilmente é arrancada do solo, mas quando cresce, ninguém a pode retirar pela profundidade das suas raízes. Assim ocorre conosco quando ocultamos das pessoas e tentamos ocultar de Deus nossos conflitos entre Sua santa vontade e nossas disposições mais carnais (Tg. 1:14-15) pelo dinheiro, poder e perversão sexual como pornografia, sensualidade, experiência libertina fora do casamento. Pecado é sempre apresentado pela tentação como algo satisfatório e seguro, porém oculta as piores conseqüências (Gn. 3).

       O líder, assim como qualquer outro, é pecador. Vivemos em dias em que líderes não suportam a evidência de que são frágeis, preferem resistir a esta condição como justificativa de inspirar pessoas a manterem-se firmes diante das pressões. Chegam ao ponto de se deprimirem porque não agüentam mais tantos pesos sobre sua consciência, quando eles não se transformam em escândalos públicos potencialmente capazes de esvaziar a moral, a autoridade e o respeito pelo modelo de vida diante das pessoas de um dia para o outro, quando poderiam ser evitados pela sincera confissão diante de Deus e auxílio de um bom amigo, responsável o suficiente para conduzi-lo a restauração. Não importa o cargo ou posição que você ocupa, deixe as pessoas saberem que você falha como elas, e como elas, pode ser restaurado a partir do interior com a graça de Deus (Tg. 5:16).

02. Arrependa-se.

Uma vez que o pecado é reconhecido e confessado, resta agora o arrependimento.

A palavra no A.T. usada para traduzir "arrependimento" é a palavra shûb (heb.). É o 12º verbo mais usado no A.T. (mais de 1.500 vezes). Ele foi muito usado para descrever literalmente a responsabilidade humana, diante de sua consciência de pecado, desviar-se do mal e voltar-se para Deus. O hebreu compreendia arrependimento como alguém que estava caminhando em uma direção e resolveu "voltar" atrás. A linguagem é essencialmente prática.

       No N.T. temos a palavra metamelomai que expressa o arrependimento por um erro, uma dívida, uma falha ou pecado, então o indivíduo olha para trás lamentando ter entrado por um caminho que não deveria. Só para ilustrar, a parábola do "Filho Pródigo" em Lucas 15:11-20ss, apesar de estar tratando de salvação, descreve como o judeu compreendia a atitude de arrependimento de alguém que saiu precipitadamente de casa e fez coisas que nunca deveria ter feito. O menino arrependido não ficou resistindo a humilhação de "voltar" depois dos erros que cometeu, ou explicando para sua consciência culposa o porquê estava sofrendo as conseqüências. Ele "caindo em si", levantou e voltou para o seu pai.

       Arrependimento é a atitude seguinte do reconhecimento do erro. Não basta reconhecer o erro, é recomendado pelas Escrituras a confissão e arrependimento. A confissão te liberta, o arrependimento te reeduca. Guarde isto. Arrependimento é mais que um sentimento verdadeiro de dor, desejo sincero de não mais cometer o mesmo erro, ou mesmo a manifestação de contínuas lágrimas, é a atitude planejada e consciente do compromisso de reeducar-se, replanejar-se, desfazer o que pode ser desfeito, é o abandono completo do que não deveria ser possuído, é desviar-se daquilo que te provoca o erro, é o esforço contra si mesmo de submeter-se à disciplina e até humilhações com humildade e esperança de que Deus resgatará sua alegria de andar como Ele quer, e como é melhor para você, servo do Senhor.

       Imagine como seria se tivesse uma picareta em suas mãos para cavar um terreno e logo descobrisse ter acertado um cano d'água. A água fluiria como resultado de ter errado o alvo. Lamentar o ocorrido, chorar e apenas reconhecer ser o culpado, não seria o bastante. A água continuaria fluindo até inundar tudo. Seria necessário consertar o cano. A Bíblia recomenda que devemos nos arrepender dos nossos pecados porque o arrependimento é uma responsabilidade dada por Deus ao homem que expressa submissão, temor, humildade e dependência dEle. Arrependimento atrai perdão, atrai cura, atrai libertação, atrai vida (Jó 36:10-11; Jr. 15:19; Mt. 3:8; Mc. 1:4; Lc. 15:7 e 10, 17:3-4; 2 Cor. 7:10; 2 Tm. 2:25).

       Gostaria de concluir, sugerindo alguns passos práticos de arrependimento de acordo com a reflexão anterior :

2.1 Dê centralidade à Cristo em sua liderança.

Você faz isto quando começa considerar que sua função é servir os outros e não promover uma estrutura de serviçais. Isto implica em trabalhar arduamente para promover os outros pelo constrangimento do seu exemplo. Você dá centralidade à Cristo quando atribui os bons resultados a Ele e os maus a você. Ele é perfeito, mas você não. Se inverter isto, perde a oportunidade de glorificá-Lo. Cristo é digno de honra não apenas pela perspectiva humana do Seu ministério, mas por ser Deus eterno. Jesus disse que sem Ele não podemos fazer nada (Jo. 15:5); portanto, qualquer coisa desarmonizada da Sua vontade revelada nas Escrituras que fizer, não passará de distração para você nesta vida, pois não terá valor para Ele (v.6). Você dá centralidade à Cristo em sua função de liderança quando pede perdão por seu erro, quando volta atrás em algum projeto que não deveria ser iniciado ao invés de persistir no erro para provar que não é leviano, quando se alegra com o sucesso do outro, quando ora pelas pessoas que te perseguem, quando não revida a ofensa ou manipula o fraco para ter vantagem, quando ouve mais e fala menos, quando diz "não sei" ao invés de falar qualquer coisa só para sustentar o status de bem preparado. Você glorifica Jesus em seu ministério quando cobra dos outros somente aquilo que cumpre com perseverança. Você dá centralidade à Cristo quando faz coisas que as pessoas homenageiam a Deus.

2.2 Organize suas emoções, se não pode só, peça ajuda.

a) Abandone o ativismo. Este é um sintoma intensificado em nossa época por causa da crescente competitividade, ganância, necessidade de sobrevivência, medo do fracasso, até mesmo para tentar provar algo para alguém ou si mesmo. Uma das características do ativista é que mesmo fora do trabalho ele não se desliga daquilo que ocupou todo o seu dia e suas melhores relações como esposo (a) e filhos (as) que sofrem progressiva fragilização por este distanciamento, e suas maiores companhias, naturalmente, passam a ser os companheiros de trabalho. Além deste risco eminente à estrutura e harmonia familiar, o ativista não consegue manter disciplina de oração, leitura completa de um livro, preparação adequada de um sermão, planejar, etc. levando-o a variações imprevisíveis de humor e baixo limite de paciência. Muitas realizações podem custar muito de sua saúde física e emocional, muito de sua relação conjugal e familiar e muito de sua vida devocional. Muitas realizações não impressionam a Deus e nem podem manipular Sua satisfação sobre você. O grande desafio à maturidade do líder é saber trabalhar menos com muita qualidade e preservar o que é mais importante : relações profundas com o cônjuge e filhos (as). Pois se o tipo ou maneira de trabalhar te rouba tempo de reflexão bíblica e sua família, ele deve ser questionado.

b) Aceite os constrangimentos que te desafiam na vida pessoal. A zona de conforto é um ambiente que todos nós criamos para nos sentirmos seguros. Isto normal e saudável. O que não é saudável é o forte apego a esta condição. Os maiores desafios do crescimento sempre exigem mudanças profundas na qualificação pessoal e maiores responsabilidades. Se você não estiver disposto, dificilmente poderá avançar além do lugar que já chegou. Hanz Finzel em Dez Erros que um Líder não Pode Cometer (Ed. Vida Nova) comenta que os inconformistas, normalmente conhecidos como rebeldes pelo ambiente dos acomodados, são aqueles que cobram evolução porque acreditam que seus líderes têm potencial suficiente para crescer mais, e por isto são mal compreendidos quando não há mais disposição para assumir novas e necessárias responsabilidades. Ao invés de rejeitá-los do processo de liderança, Finzel recomenda valorizá-los pela capacidade de ver onde a comunidade pode chegar além do que já chegou. Se você tem ao seu lado pessoas que sempre questionam, apontam falhas, saiba dar ouvidos ao que dizem. Com humildade, poderá se convencer que determinadas áreas da sua liderança merecem melhor atenção e outros, mesmo que com menos experiência que você, e verdadeiros enjoados, podem ser grandes amigos no processo de crescimento da sua vocação. São eles que nos impulsionam a crescer. Ainda que no início seja por constrangimento, no fim sempre olhamos para eles com gratidão.

c) Alegre por aqueles que Deus levanta ao seu lado com grandes potenciais. Líderes são especiais de fato. Gente separada por Deus para funções de grandes responsabilidades. Mas não reúnem todos os dons para a manutenção do Corpo. Deus levanta pessoas ao lado, não com melhores dons, mas diferenciados. Como são tentados a ter o controle de tudo, sofrem o conflito de não poderem lidar com tudo só pela ausência de dons a ele não concedidos pelo Espírito Santo. O resultado parece ser óbvio : alguns temem perder seu espaço e, como Saul, entram numa neurose de que serão substituídos por quem Deus tem usado de modo peculiar, e começam a pensar que tais pessoas são seus competidores. Estas crises de ciúmes e retaliações no ambiente de trabalho apenas o faz perder a bênção de ter pessoas tão talentosas, levantadas por Deus para auxiliá-lo naquilo que sozinho jamais teria condições de fazer. Alegre-se por ter pessoas tão bem dotadas para não ter de se entristecer depois por não encontrá-las agregadas a sua vida e ministério que Deus o chamou.

d) Alimente sua confiança pessoal por confiar em Deus. A questão da auto-estima é algo completamente importante para um líder. Quando não a tem, o caso é sério. Sua identidade passa ser a do outro e ele mesmo não tem respostas para suas questões existenciais. Aprender com os outros é bíblico e, portanto, saudável. Mas todos nós temos uma identidade, um perfil único de trabalho. Você precisa compreender em Deus qual é a identidade que Ele te deu para liderar. Seus dons te ajudarão encontrar a resposta. Quando se tem a resposta sobre a ênfase da sua vocação, não há mais necessidade de copiar dos outros, o que é natural para início de carreira, mas de produzir segundo o potencial que Deus te deu.

2.3 Demonstre clara submissão a uma liderança.

Elimine as dúvidas sobre esta questão. A melhor referência de autoridade que se dá de si mesmo, é sua clara capacidade de humildemente estar submisso a uma autoridade. Se você não é submissão a uma liderança, que referência poderá oferecer aos seus liderados ? Não espere deles aquilo que você ainda não demonstra claramente. Se sempre questiona decisões dos seus superiores, como agiria se seus liderados tivessem este hábito em relação a você ? Esclareça este ponto. Não deixe as pessoas pensarem que este é um assunto delicado de ser tratado. Sem submissão, não há ordem. Mesmo que esteja à frente de um ministério não-Denominacional, principalmente neste caso, precisa de uma liderança cooperadora para pastoreá-lo, supervisionar suas ações ministeriais, exortá-lo dos perigos que te cerca, discipliná-lo quando necessário, apresentar percepções externas, ouvir suas confissões mais comprometedoras, ... isto só te dará credibilidade e saúde. Procure um conselheiro amigo, todos nós precisamos de um.

Com meu carinho de sempre,



Ericson Martins
contato@brmail.info

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2 comentários:

  1. Quero agradece-lo. Sua reflexão é extremamente relevante e atual; Posso tranquilamente dizer que suas palavras deveriam no minimo provocar na liderança um conceito sobre a real motivação de liderar; Estou persuadido ao final dessa reflexão a abortar alguns conceitos e refazer outros; Em Cristo e na esperança de ser melhor; Pr. DJ

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  2. estou seguindo seu blog gostaria que seguisse meu site tbm.

    Apostolo Ladislau

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