Dúvidas incontidas


Na vida cristã, aprendemos a respeitar tão rigorosamente os dogmas e as estruturas da religião que, com raras exceções, não nos sentimos encorajados a fazer perguntas e até questionar. Nem sempre por rebeldia, mas porque não compreendemos muitas coisas.

E, em meio às batalhas, nos sentimos exaustos por ter de sustentar uma armadura, enquanto as dúvidas nos ameaçam por dentro.

Há verdades desconfortáveis que evitamos admitir por medo de sermos mal compreendidos. No entanto, essas questões se acumulam em nós até que, em algum momento, transbordam.

Essa foi a experiência do profeta Habacuque ao desnudar sua alma diante de Deus. Ele expressou sua angústia com humildade até que seus sentimentos explodiram em uma reclamação intensa:

“Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? (…). Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão?” (Hc 1:2-3)

Habacuque queria entender por que Deus parecia indiferente (“Até quando?”) e insensível (“Por quê?”). Ele vivia em um contexto de injustiça e orava insistentemente, mas agonizava com a aparente demora de Deus em responder.

Muitos cristãos hoje sentem o mesmo: perguntam-se por que Deus parece silencioso diante de suas orações e anseios mais genuínos.

Sabemos, porém, que Deus respondeu a Habacuque no tempo certo (Hc 1:5-11). O profeta fez novos questionamentos (Hc 1:12 a 2:1), e Deus lhe deu novas respostas (Hc 2:2-20). Até que, enfim, mesmo sem ver mudanças imediatas, Habacuque encontrou consolo e confessou sua confiança incondicional no Senhor (cap. 3).

Assim como os discípulos no barco com Jesus (Mt 8:23-24), aprendemos que até os cristãos fiéis enfrentam medos, inseguranças e dúvidas. Isso porque tais sentimentos também têm seu lugar diante de Deus.

Na maioria das vezes, Deus nos responde, mas nem sempre da maneira ou no tempo que esperamos. Há momentos de silêncio e incerteza em que a única atitude possível é confessar confiança e adorá-lo. E é nesses momentos que Deus nos prova, pois “o justo viverá pela sua fé” (Hc 2:4).


Rev. Ericson Martins

0 comentários: