Valores Contraditórios


“Assentado diante do gazofilácio, observava Jesus como o povo lançava ali o dinheiro. Ora, muitos ricos depositavam grandes quantias. Vindo, porém, uma viúva pobre, depositou duas pequenas moedas correspondentes a um quadrante. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos os ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento” (Marcos 12:41-44)

Este texto nos ensina sobre como devemos proceder com as nossas contribuições financeiras, dedicadas como “ofertas” de adoração e obediência a Deus.

Tal assunto, no atual contexto de tanta exploração indevida e de heresias no tocante ao que a Bíblia diz, dentro da Igreja evangélica brasileira, é tratado com máximo zelo, especialmente por parte de Igrejas históricas. Estas, às vezes, até deixam de dar ênfase sobre ele, para não correrem o risco de serem interpretadas, por associação, como aquelas que procedem mal, que não são transparentes na administração financeira e que provocam escândalos.

Se por um lado, por parte de alguns, testemunhamos abusos (legalismo, charlatanismo, chantagens emocionais, discriminação, etc.), por causa de perversões bíblicas e de protagonistas desonestos, por outro, testemunhamos um verdadeiro descaso com o princípio bíblico da doação regular dos dízimos e ofertas e negligência da responsabilidade dos membros da Igreja, para com as necessidades dela.

Além do significado espiritual que eles representam, como alegria, fé, generosidade, amor, adoração, espontaneidade, obediência, dependência de Deus... Igrejas são instituições visíveis, com compromissos regulares quanto ao sustento de pastores, missionários e evangelistas, de Congregações e expansão de novas igrejas, assistência diaconal aos pobres e enfermos, salários de funcionários, pagamentos de tributos, despesas de consumo, conservação de imóveis, eventos para edificação da fé, festividades sociais, dentre tantas outras. E qual é a fonte de manutenção de todas estas necessidades? É claro que é a fiel dedicação dos dízimos e ofertas dos membros, do compromisso, sensibilidade e generosidade de cada um deles!

Nosso objetivo aqui, com esta devocional baseada em Marcos 12:41-44, é o de encorajar a sua prática, mas observando, em primeiro lugar, o seu princípio bíblico (2 Co 9:7-15), a fim de que ela “tribute muitas graças a Deus”!

Tanto Marcos quanto Lucas relacionam a exploração dos escribas contra as viúvas nos versos anteriores. Uma facção dentre eles (a profissão não era unicamente religiosa) ia até as casas delas e as “devoravam” (Mc 12:40). Como? Cobrando para fazerem orações, com base em leis criadas por eles e falsamente derivadas da Lei mosaica, portanto, quanto mais longas, mais exigiam pagamento, submetendo aquelas viúvas a uma pobreza ainda maior. 

Essa opressão dos escribas, contra os pobres e viúvas, era antiga, já tinha sido denunciada e condenada, por Deus, desde os dias do profeta Isaías:

“Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Is 10:1-2).

Especificamente, os escribas que se dedicavam à religiosidade dos judeus, eram mantidos pelas contribuições financeiras entregues no Templo, para a manutenção das suas diversas necessidades.

Não há nada de errado em acumular riquezas, mas na sua corrupção, muitos escribas se tornaram ricos e quanto mais tinham, mais se omitiam no tocante a responsabilidade de doarem generosamente, em conformidade com as suas posses. Eles ofertavam do que sobrava, não de acordo com a equivalência das suas rendas.

Os escribas e fariseus valorizavam a estética, a aparência, amavam a popularidade das suas obras, eram arrogantes, hipócritas, competitivos e ostentavam a sua reputação religiosa. A viúva, pelo contrário, se encontrava no anonimato, era vulnerável por sua pobreza, considerada desprezível e de reputação social inferior por ser mulher.

Aqueles religiosos, corrompidos pelo engano sobre a Lei, pela ganância e vaidade, na condição social que ocupavam, estavam sempre à espreita, procurando uma oportunidade para denunciar a forma inadequada de rigor religioso. Eram incansáveis na investigação da vida alheia e não perdiam a oportunidade de discriminar os que não atendiam suas expectativas. A viúva, marginalizada por este [falso] rigor religioso, reconhecia a sua pequenez e não ousava qualquer gesto que chamasse a atenção.

Foi neste cenário que Jesus, o único que tem a legítima autoridade para julgar os segredos dos homens, se posicionou diante do gazofilácio e passou a observar, profundamente, como todos estavam entregando as suas contribuições regulares. E esta atitude foi determinante naquele momento para nos ensinar:

01. As aparências enganam.

Muitos estavam depositando “grandes quantias”, mas sem o valor daquelas pequenas quantias depositadas pela viúva. Ela depositou duas moedas correspondentes a um quadrante, o qual era a moeda de menor valor monetário no sistema romano. Aparentemente os ricos estavam contribuindo muito, mas na realidade, quem estava contribuindo muito mais era a pobre viúva, de acordo com as percepções atenciosas de Jesus, que discernia as motivações e a realidade daqueles atos, por trás de todo aparato religioso. 

Para Jesus, o valor não estava na quantidade, mas no genuíno impulso da obediência e da fidelidade.

02. A fidelidade na entrega das contribuições deve ser uma prioridade.

Os ricos entregavam grandes quantias, mas do que sobrava, e isso prova a sua omissão daquilo que realmente deviam entregar. 

O que sobrava, neste contexto, testificava aquilo que se acumulava a parte do que consideravam prioridade em seus orçamentos, por isso, certamente, não davam importância para as contribuições que dedicavam. Já a viúva, não hesitou entregar tudo o que tinha, quando o que tinha era muito importante. 

Quando nos encontramos em grandes dificuldades financeiras, a menor quantia que possuímos é tratada com extraordinária importância, entretanto, para a viúva, o valor não estava nas coisas materiais, mas na obediência e confiança nas instruções Divinas. Por essa razão, não usou de supostas justificativas ou de longas explicações para, no final, não entregar, ainda que as suas únicas duas moedas, pelo contrário, as entregou.

03. Deus é maior que as riquezas.

Jesus ensinou que não é possível servir a Deus e as riquezas, ao mesmo tempo (Mt 6:24). O motivo é que as riquezas oferecem oportunidade de conforto e segurança, inclusive o sentimento de poder sobre as necessidades. Ele reivindicou que busquemos essas garantias em Deus, em primeiro lugar (Mt 6:30-33), porque Ele é o único que pode suprir as nossas mais diferentes necessidades (Sl 121 e 127; Mt 6:9-15). 

Os ricos cuidavam dos seus interesses, só depois, do que sobrava, entregavam as suas contribuições e, ainda, desproporcionais ao que possuíam. Por esta razão, suas práticas, mesmo sendo de doações, demonstravam confiança em si mesmos e o nocivo senso de controle das suas necessidades, como se Deus fosse um pobre carente de esmolas e não o Senhor de tudo (Sl 24:1), digno, portanto, de maior consideração naquilo que, a Ele, era dedicado, através das contribuições financeiras.

04. Fidelidade modela mais a motivação que os atos.

A viúva, na sua extrema pobreza, poderia recorrer ao pensamento de que o que possuía era importante para as suas necessidades essenciais, apesar de insuficientes (duas pequenas moedas). Mesmo vulnerável a tentação de justificar a retenção da sua contribuição, preferiu proceder com a sua entrega. Certamente, estava ciente da sua importância na sua vida e de que ela seria insuficiente para atender, substancialmente, as demandas do Templo, bem como daqueles que se dedicavam nele. Contudo, isso não a impediu de exercitar a consciência da sua fidelidade a Deus. 

Apesar da quantidade da sua contribuição ter sido pequena, incapaz de impressionar qualquer pessoa, a fidelidade daquela pobre mulher, foi reconhecida e aceitável por Jesus, porque, o determinante na regularidade e na honesta proporcionalidade (At 5:1-11; 1 Co 16:1-2), é a prática generosa da justiça e do amor a Deus, em todos estes atos (Mt 23:23-24; Lc 11:42). 

Esta história nos ensina, portanto, que um simples e anônimo ato, mesmo quando desprovido de qualquer reconhecimento público, quando dirigido pela motivação correta, honra a Deus.

05. As pequenas coisas podem revelar grandes valores.

No reino de Deus os que a si mesmos se fazem grandes são apequenados e os que a si mesmos se fazem pequenos, são engrandecidos. A contribuição regular, proporcional às nossas rendas e generosa, nunca deve enaltecer nosso senso de superioridade e de merecimento para qualquer tratamento especial na Igreja, como cargos ou impunidade em nossos pecados. Os escribas e fariseus, se consideravam fiéis a Deus, inclusive, nas suas doações, assim, sustentados pela justiça própria, agiam como juízes dos que não lhes eram semelhantes, sem se dar conta de que a justiça de Deus não é como a dos homens. 

Cristo se fez pobre (2 Co 8:9), se humilhou (Fl 2:8), foi rejeitado no lugar de um rebelde e homicida (Lc 23:18-25), contado entre malfeitores (Lc 22:37), provou as dores e descobriu o que é padecer (Is 53:3), experimentou o sofrimento (1 Pd 2:21-25) e a própria morte (1 Pd 3:18) a favor de outros. A essa pequenez humana que se entregou, Deus o exaltou sobremaneira (Fl 2:9), porque Ele é o único capaz de abençoar o homem (Tg 4:10; 1 Pd 5:6) e de discipliná-lo, conforme afirmado por Lucas: “o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18:14).

Mesmo que estejamos humilhados pela pobreza e a nossa contribuição seja pequena, não importa, desde que sejamos vistos por Cristo, obedecendo e tributando ações de graças, como fiéis e regulares contribuintes, dependentes das misericórdias do Senhor, pois é Ele quem nos guia com sabedoria e nos abençoa em tudo!

Pr. Ericson Martins

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