Trabalhando na Graça

"Toma o que é teu e vai-te;
pois quero dar a este último tanto quanto a ti
" Mateus 20:14


O capítulo 20 de Mateus é um conjunto das últimas instruções de Jesus aos Seus discípulos antes de Sua entrada em Jerusalém, ocasião que iniciaria as tensões em torno crucificação.

Nesta parábola Jesus revela como Deus administra Sua bondade. Note que o último verso do capítulo 19 (v.30) corresponde com o verso 16 do capítulo 20. A ligação entre os dois textos é direta e enfática. Enquanto 19:16-30 enfatiza o homem acumulado de riquezas materiais (v.22), o capítulo 20 demonstra Deus como fonte de toda graça (v.15).

Embora os judeus fossem os primeiros a participar dos benefícios da aliança, os gentios foram também chamados para usufruírem igualmente do gozo resultante da obra de Cristo. Esta parábola exemplifica que mesmo estando os judeus a mais tempo sob aliança com Deus, os gentios tendo sido alcançados na dispensação dos tempos bem mais adiante (Rm. 10:12; Gl. 3:28; Cl. 3:11), são igualmente abençoados por Deus, em Cristo. A razão é que não se trata do nível de desempenho, resultados, inteligência ou esforço humano, mas de Deus de quem vem toda graça. Assim, percebemos que Deus não é devedor de ninguém como se Ele fosse injusto em abençoar aqueles que chegaram depois (vv.11-12), mas justo em redimir aqueles que merecem condenação, não importando em que tempo.

O texto fala também de pagamentos correspondentes ao atendimento de serviço do senhor na vinha. Sem este serviço, o homem seria apenas um ocioso miserável, assim como aquele que persiste ignorar a graça a viver pecaminosamente convencido que por meio do legalismo e tática meritória driblará a intenção de Deus em Cristo para alcançar salvação. O serviço nada mais é que a exterioridade de quem ouviu o chamado do Senhor e passou a servi-Lo. O salário não poderia ser pagamento de trabalho, mas graça dispensada sobre os Seus servos. Aqueles que interpretam bênçãos como moedas numa relação comercial se surpreendem ao descobrir que "não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Rm. 9:16); exatamente como adverte o verso 15.

Há uma tendência em nossos dias de pensar que se dermos "tanto" para Deus Ele não terá outra alternativa senão retribuir com muito mais aquele que apresentar uma oferta "irrecusável". Este pensamento esconde a arrogância humana de pensar que com suas migalhas pode controlar a dispensa da graça divina. Os fariseus pensavam assim. Pensavam que pelo modo estereótipo de espiritualidade convenciam ser favoritos de Deus; assim, eram indispensáveis, insubstituíveis, semente da fé pura, "filtros" da espiritualidade aceitável, especialistas em desvendar mistérios e modelos inalcançáveis de fidelidade às recomendações da Lei.

Todas estas observações podem alentar aquele que vive entristecido consigo mesmo porque não consegue atender todas as exigências de uma agenda espiritual, na mesma medida que o convence de crer em Deus e dedicar-se por amor a uma vida de obediência, mesmo quando as bênçãos não são na mesma proporção do trabalho insuficiente que pensa muitas vezes ser suficiente para a perfeita vontade de Deus (v.15). Mateus escreveu àqueles que estavam mergulhados até à cabeça num judaísmo radical a respeito de Jesus, o rei soberano em bondade para dizer que a bênção da salvação, assim como as subseqüentes, não são alcançadas mas alcançam aqueles que O obedecem. Esta parábola conforta com a certeza que mesmo não sendo pessoas inteiramente capazes para satisfazer a vontade do Senhor, o fruto do seu amor os impulsionarão a servi-Lo pelo racional reconhecimento que Ele é Senhor, digno de obediência sincera, firmados na graça de Deus e não em suas próprias forças. Razão suficiente para não menosprezarmos os "fracos" ou discriminar os diferentes dons, mas cooperarmos uns com os outros na "vinha do Senhor".

Com amor,


Ericson Martins
contato@brmail.info

_____________________________
Deixe seu recado clicando em "Comentários" abaixo
.

1 comentários:

A Fé de Abraão


"É o caso de Abraão, que creu em Deus,
e isso lhe foi imputado para justiça"
Gl. 3:6

No Livro de Gênesis conhecemos a história de Abraão. Este homem foi encontrado por Deus com a virtude de crer em Deus quando ninguém mais cria. Seu contexto era de ceticismo e ateísmo, era um contexto politeísta, idólatra, e de tradições fortemente convincentes do ponto de vista da fórmula de "causa e efeito" praticada por legalismos, auto-flagelação, oferendas a todo tipo de deus diante da combinação entre imoralidade e favores supostamente divinos. Contra tudo e contra todos, inclusive de seus familiares, Abraão era um monoteísta convicto, pois cria apenas nAquele que criou todas as coisas e que exigia culto exclusivo por sua santidade e perfeição dos Seus juízos. Assim, sua vida moral era íntegra e ela temia ao Senhor.

Deus prometeu dar-lhe uma descendência poderosamente numerosa (Gn 12:1-3), por meio da qual todos os seus opostos seriam abençoados. A posteridade era considerada uma das mais ricas dádivas divinas, enquanto a esterilidade era considerada vergonha, maldição e motivo de repúdio (Gn. 16:1-4 cf. Os. 9:14; Lc. 1:25). Sara, sua mulher era estéril (Gn. 16:1), estava avançada em dias (Gn. 17:17, 18:11) e a promessa ainda não havia se cumprido. Idoso, Abraão ouve novamente a promessa de Deus, aproximadamente 20 anos depois que foi mencionada pela primeira vez (Gn. 15:1-4). Neste episódio Deus lhe mostrou as estrelas nos céus e reafirmou : "Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse : Será assim a tua posteridade". Apesar de toda circunstância que poderia dizer : "Abraão, caia na real, seu Deus não existe, essa sua expectativa é um mecanismo de defesa da sua mente que rejeita a frustração de não ter filhos"; ele agiu assim : "Ele creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça" (Gn.15:6). Em outra ocasião Deus insistiu : "Far-te-ei fecundo extraordinariamente, de ti farei nações, e reis procederão de ti" (Gn. 17:6).

Após aliança, Deus, como era de se esperar, cumpriu a promessa no tempo determinado por Ele e Sara, idosa, estéril e desconfiada, gerou Isaque, filho de Abraão e herdeiro da promessa (Gn. 17:18-22, 21:1-4). O momento mais dramático foi quando, depois de tudo, Deus lhe pediu Isaque por meio de sacrifício (Gn. 22:1-18). Abraão estaria louco de matar seu único filho a pedido de Deus ? Seria realmente Deus pedindo a prática de infanticídio ? Não seria mais convincente acreditar que era o diabo ? Todas estas perguntas poderiam facilmente ser feitas por qualquer pessoa se estivesse diante de tamanho drama de ter de sacrificar seu filho a pedido de Deus.

No Livro de Gênesis, os personagens tinham uma relação muito mais direta com Deus que os crentes dEle de hoje. Lemos muitas autênticas histórias em que Deus falava com os Seus como se estivesse sentado ao lado de cada um. O diálogo era literal e direto. Neste mundo, a identidade do Ser que pediu o sacrifício não poderia ser posta em dúvida. Abraão sabia que era realmente Deus quem lhe falara. Paralelamente, em nossa época, ninguém pode estar certo sobre ouvir a voz de Deus quando o que Ele pede vai além da nossa lógica ou ambições pessoais mais protegidas e que nos fazem sentir seguros. Quando "ouvimos" um pedido que combina com nossas expectativas, não importamos se quem pede é Deus, apenas aceitamos como se fosse. Daí temos o resultado de tantos absurdos praticados em nome de Deus como atos terroristas, pressão sobre os fracos na fé para explorar suas finanças, manipulação da agenda das pessoas para manter a igreja cheia sob a chantagem de serem perseguidas por supostas maldições e até de perderem a salvação caso não consigam carregar todos os fardos do legalismo e fanatismo religioso.

Abraão confessou e praticou tamanha fé que se tornou paradigma para todos os crentes em todos os tempos. Sua história é de fé genuinamente aprovada por Deus.

Mas se histórias como essas tratam da natureza da nossa fé em Deus, qual é a mensagem ? A fé antecede a obediência. Deus já tinha prova de que Abraão cria (Gn. 15:6), a obediência neste caso é apenas uma expressão da profundidade da fé e não propriamente de sua existência. A história de Abraão, desde que foi chamado por Deus para deixar sua terra e histórias familiares ali construídas para um lugar sem qualquer informação de destino (Gn. 12:1), demonstra que uma pessoa de fé verdadeira pode não precisar de provas para exercê-la, sendo este capaz inclusive de ir além delas, simplesmente por acreditar que mesmo um pedido sem sentido óbvio tem da parte de Deus propósito aprovado além da compreensão humana. Esta fé está firmada no Ser de Deus, e não exige comprovações externas pelo pressuposto da dúvida sobre quem Ele é.

Abraão é o personagem da fé verdadeira, não exigiu provas para crer, simplesmente creu em Deus a despeito de filosofias que justificam seus atos diante de humanistas que preferem crer que são resultados do acaso cósmico.

Antes de verdadeiramente sacrificar seu filho Deus o impediu e foi revelada a profundidade da fé que Ele espera de cada um de nós. Ele realmente, na lucidez da sua alma, executaria seu filho. Certamente acreditaria que o mesmo Deus que estabeleceu a aliança da qual seu filho foi resultado e por meio de quem sua descendência se tornou numerosa, ao pedir o sacrifício de seu único filho, Isaque, Ele providenciaria um meio e manifestaria Sua fidelidade, mesmo que Isaque tivesse de ser ressuscitado. Não hesitou momento algum desobedecê-lo.

Creia em Deus.

Com amor,


Ericson Martins
contato@brmail.info

_____________________________
Deixe seu recado clicando em "Comentários" abaixo
.

7 comentários: