Impasses e Desafios da Nossa Identidade


A democracia é um sistema político que dá ao povo poderes de participação. Esta democracia é em parte positiva quando se trata da constituição de um país, mas associada a uma cultura como a brasileira pode representar um impasse a particular identidade de cada um. Creio que por influência das inúmeras novelas e ocupação insuficiente na esfera educacional e profissional, a cultura brasileira foi treinada a assistir a vida alheia e opinar sobre ela. Sofremos tanta pressão dos outros sobre o que devemos fazer da nossa vida que muitas vezes olhamos para trás e descobrimos que fomos projetados a ser quem não sonhamos ser. Sofremos com isto a solidão mesmo cercados de pessoas que amamos. Muitos pais ainda tentam reproduzir nos filhos os sucessos que eles não alcançaram; muitas decisões que deveriam ser tomadas por nós são substituídas por opiniões alheias porque tememos suas reações se negarmos obedecê-las; se queremos comprar algo que irá nos satisfazer o vendedor gastará seu tempo tentando nos convencer a comprar o que ele acha melhor; aceitamos muitos prejuízos e constrangimentos por temermos dizer "não" ao outro e acabamos sofrendo com tudo isto. O brasileiro tem grande desprendimento para se envolver com a história do outro, e isto é nobre até o limite que determina o espaço de cada um. A Bíblia diz que "cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus" (Rm 14:12) porque cada um é responsável moralmente por suas escolhas na vida. Com estas dificuldades, gradativamente nossa identidade vai se obscurecendo e confusos nos tornamos vulneráveis à infelicidade.

Tenho esperança que esta reflexão ajudará muitas pessoas que se sentem moralmente sobrecarregadas por pesos que não lhes pertencem, impostos por pressões da “maioria” e também por valores regidos pelo cego sistema de sociedade que exalta o ego enquanto se perde a alma por não enxergar o quanto poderia ser feliz simplesmente valorizando quem é e sua importância singular. 

Identidade, segundo o Dicionário Aurélio, “é um substantivo feminino que significa conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa. É o aspecto coletivo de um conjunto de características pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido”. Nesta base conceitual, podemos parafrasear afirmando que identidade é o conjunto de características que torna uma pessoa especialmente única.

Certa vez, organizando os brinquedos de meu filho em seu cercadinho comecei a pensar como aqueles brinquedos poderiam influenciar na formação da sua personalidade, a partir daí refleti sobre vários assuntos e cheguei a pensar que saber quem somos e comunicar estas convicções através da nossa identidade hoje em dia é questionável. Se disser quem você é para um bancário, sua identidade será simplesmente questionável, é preciso provar através de um documento que você é você. Parece irônico, mas é isto mesmo. Temos que provar que não somos o "outro". O mundo criou pessoas com distintas identidades e chegou ao ponto de exigir comprovação sobre quem realmente são. Neste caso, o documento é mais confiável que a declaração verbal de quem somos. É comum ouvirmos dizer: "Sem documento você não é ninguém!". Sofremos tanto com auto-desvalorização que assumimos ser "ninguém" pelo simples fato de não possuirmos um documento, um emprego, por não avançar como gostaríamos nos estudos ou mesmo, conquistar êxito amoroso que escolhemos ter. 

Um tema adquire melhor sentido quando embasado historicamente, pois a história lhe oferece a base conceitual e evolutiva, desta forma, legitimando-o. Nesta certeza, convido-o a refletir sobre Gênesis 1:26. Lemos Deus (Elohim) decidindo criar o homem ('adamah, "humanidade") conforme a Sua semelhança. A humanidade recebeu uma identidade que é a semelhança de Deus no caráter moral. Embora esta identidade não fosse uma semelhança perfeita de Deus (igualdade), Adão, na convicção de quem era, encontrou em Deus seu sentido existencial. O homem, antes de se envolver com o pecado, era visto como a imagem de Deus na terra. Se alguém o encontrasse conheceria quem é o Senhor e esta foi sua primeira missão: ser imagem de Deus pela sua semelhança a Ele. 

No episódio que se aventurou desobedecer a Deus, Adão, ao pecar, viu a semelhança de Deus distanciar, desnudando a natureza humana, deixando-a sem referência moral em Deus. Isto revelou a incapacidade que o homem tem para solucionar sozinho o problema da culpa e vergonha (Gn 3:7, 21), crises de toda ordem (v. 8) e medos (v. 10). O pecado conduziu o homem a um cenário distante da referência que recebeu ao ser criado. A perda desta identidade está diretamente relacionada com o pecado. O instinto do homem culpado é fugir de Deus. A auto-justificação encontrou meios pelos quais o homem tenta compensar a distância que o pecado criou em sua alma em relação a Deus. Por mais que ele tente se esconder, sem as "coberturas", o que resta é a desfiguração do caráter moral do seu ser. Somente Deus, por intermédio de Seu Filho Jesus Cristo poderá resgatar esta identidade através da nossa restauração, ensinando-nos o valor que somos diante dEle; este processo redirecionará nossas vidas dando-nos a firmeza para resistir às tentações de desacreditar em nossa importância.

Com um vazio na alma, a humanidade passou a tentar cobrir sua nudez como Adão e Eva fizeram. Como cozeram folhas para se cobrirem, muitos hoje, para amortecer a dor da solidão e crise existencial, entram por vários caminhos, e como exemplos de alguns deles, estão os caminhos das drogas, alcoolismo, inveja, avareza e prostituição. Talvez estes caminhos nunca foram trilhados por você e nunca será, mas há algumas armadilhas potenciais que merecem especial atenção e quero compartilhá-las com você. Se não caiu nelas, te servirão de alerta o desafio de vencê-las quando se apresentarem. Leia-as com humildade diante do Senhor e mesmo que ninguém tome conhecimento dos seus sentimentos, olhe para o Senhor e ore, Ele é misericordioso, bondoso, suficientemente atencioso para te ouvir e recebê-lo em Seus braços.

1. Armadilha número um: As comparações

Pessoas podem ser diferentes e ter várias características em comum, mas o que torna alguém especialmente original e exclusivo, único no mundo, é justamente a maneira como essas características se combinam na sua formação. O processo desta formação se dá pelas bases sociais, particulares, emocionais e espirituais que recebem durante a vida. Posso ter uma característica similar a que você tem, mas ela nunca será igual pelas combinações que esta mesma característica tem em relação aos demais valores desenvolvidos em mim e que me faz ter interpretações diferentes da vida. 

Desde que nascemos iniciamos uma persistente interação com o meio no qual estamos inseridos, justamente a partir desta interação, construímos não só o conceito de nossa identidade, mas também nossa inteligência, os limites das emoções e medos. A complexidade é tão grande que muitos evitam olhar para dentro dela a fim de encontrar sentido porque estão viciados a comparar-se com aquele ou aqueles que admiram. É mais cômodo comparar-se para concluir quem é do que descobrir a partir de uma reflexão claramente bíblica e sociológica. Penso que aí se dá o princípio das crises. Aqueles que arriscam entrar neste caminho (das comparações), só encontram frustrações. Guarde isto: toda comparação é injusta! A comparação tem o poder de nos convencer que somos inferiores e impõe sobre nós um padrão de status que nunca alcançaremos. Ela esmaga a identidade com o peso da auto-desvalorização. Ela cega e quem está amarrado nela não sabe para onde está se conduzindo. Isto é uma agressão contra o valor próprio, pois no fim o que a comparação busca é a comprovação de que não existimos, e sim, o "outro". Um imitar o outro, faz de todos um. As diferenças sempre existirão. Você nunca mudará isto. Ninguém é igual ao outro, nem mesmo os gêmeos.


“Durante toda a minha vida tenho tentado agradar a outros. Durante toda minha vida agi como os outros. Nunca mais farei isto ! Se eu perder meu tempo tentando ser outra pessoa, quem perderá tempo para ser eu ?” Byron Mickow


Temos um sistema de conceitos emocionais e emoções conceituais com respeito a nós mesmos, que constitui o próprio âmago de nossa personalidade. Esta é uma verdade que encontramos no texto de Provérbios 23:7: “Porque, como imagina em sua alma, assim ele é”. O modo como definimos olhar para nós mesmos irá definir o curso de nosso relacionamento conosco mesmo, com os outros e com Deus. Aprender aceitar-se não é contentar com suas fraquezas e erros, mas é aprender aceitar as características singulares que lhe pertencem. Contrariar este princípio afetará sua saúde emocional, mas aceitar provocará convicções tão firmes que lhe fará sentir-se muito mais feliz e disposto para resistir à tentação das imitações porque perceberá o quanto sua singularidade tem valor. Você aprende com os outros, mas imitá-los nunca fará parte de seus planos. Eu falo isto com liberdade de compartilhar uma crise a muitos anos atrás. Era ainda adolescente e me sentia o pior dos seres-humanos por causa do meu estereotipo. Não conseguia olhar para mim sem vergonha. Tentei fazer muitas mudanças para aproximar de um personagem televisivo que não era eu, mas nada resolvia aquela crise. Tudo o que conseguia mudar era o exterior, o interior continuava o mesmo. A sensação era que todos que eu encontrava olhavam-se sob a interpretação do ridículo e aceitava aquilo como verdade. Resultado: deprimi por me sentir incapaz e infeliz comigo mesmo. Quando aceitei que eu era único, amado por Deus e que possuía qualidades singulares, deixei de me comparar com os outros e descobri que estava fazendo um mal contra mim mesmo. 

Quando não aceitamos quem somos com nossas reais limitações e não vemos o plano da nossa vida como sendo exclusivo a nós, nunca nos satisfazemos com aquilo que ganhamos, o trabalho que fazemos nunca será bom e os elogios sempre parecerão ser falsos. Muitas pessoas se sacrificam exageradamente para emagrecer buscando ser aceitas, sob pena de se sentirem ridiculosamente obesas; enquanto outras se esforçam contra a própria saúde para emagrecer quando já são magras na perspectiva de alcançar o modelo do momento. Muitos profissionais competentes jogam fora suas experiências e formações para fazer o que não lhes fazem felizes simplesmente pela oportunidade de ganhar mais. A angústia de obter significados externos sem controle tornou-se a mola propulsora de insignificados internos. É essencial assumir e aceitar quem somos para abandonar a corrida sem fim pelos padrões que não nos pertencem. A crise existencial se evidencia pela incansável busca do padrão que os outros exigem. A comparação tenta nos convencer a entrar neste ritmo freneticamente caótico de insignificados, gerando infelicidades e perda de direção na vida.

Você era você quando nasceu. Seus pais se orgulharam de você quando nasceu, quando não tinha condições de falar, fazer ou oferecer algo. Eles se alegravam pelo simples fato de ser você um filho. Deus olha para você assim. Ele não te avalia com base em outros ou na capacidade de Lhe oferecer alguma coisa. 

Sua identidade é única. Você é inconfundível no meio da multidão. Não deixe a comparação determinar sua importância. É você mesmo quem deve descobrir. Quando acreditamos que somos importantes por sermos quem somos, não sentimos a necessidade de provar a ninguém e nem a nós mesmos. Assim desenvolvemos uma profunda consciência a nosso respeito e não nos deixamos levar pelas cobranças que os outros fazem através do êxito pessoal deles. Não olhe para o outro, olhe para você e descubra o quanto tem potencial para se desenvolver sem violentar seus sonhos e propósitos pessoais na vida. A partir de hoje, olhe no espelho e perceba sua beleza. Seja feliz por ser quem é.

2. Armadilha número dois: As falsas imprensões

De perto todo mundo é normal. 

Intuitivamente muitos fazem exatamente esta pergunta com seus procedimentos: “Qual é a impressão que devo criar para ser aceito?" Quando deveria começar questionando "quem sou?”. É um absurdo constituir nossa identidade usando a imagem como base da nossa essência. A essência sem a imagem continua sendo essência, quando a imagem não existe sem a essência. A imagem é a comunicação da essência. A Bíblia diz que "Deus fez o homem à sua imagem, conforme a sua semelhança". A impressão do homem comunicava sua essência: semelhança de Deus. Após ser criado o homem, Deus disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra" (Gn 1:28). Primeiro Ele disse "Sede", verbo "ser". A essência do homem era ser semelhante a Deus, esta foi sua primeira missão e é a nossa mais importante missão. Depois aparecem os verbos "multiplicar, encher, sujeitar e dominar". Um verbo exprime uma ação. Esta ação deveria ser resposta do ser. Adão era feliz em ser quem era em seu Criador e como manifestação de ser quem era o servia no Éden. Satanás, chamada pela Bíblia como a serpente mais sagaz, disse à mulher: "Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis..." (Gn 3:5). Ele inverteu o princípio que sustentava a identidade do homem. Primeiro ele instrui que para "ser" (semelhantes) eles deveriam "comer" (fazer). Segundo, ele tentou convencer Eva que somente pela desobediência às leis de Deus é que seriam plenos. A receita mentirosa que serviu de base para desfiguração da identidade do homem foi esta: "para ser, é preciso fazer". Ao atender o conselho de Satanás, o homem passou a conhecer (experimentar) o desencadeamento generalizado da corrupção.

O mundo é dominado por valores errados e sempre foi palco da luta entre o ser e o fazer. O descontrole de valores convenceu e ainda convence que fazer é mais importante que ser. Nesta realidade onde o fazer é mais importante, os sentimentos são trocados pelas aparências. Antes, quem queria ser culto comprava muitos livros e revistas; quem queria se sentir superior investia em bons carros; quem queria ser aceito se vestia igual aos atores das novelas; quem queria ser admirado como líder, tentava acumular certificados de todos os cursos possíveis, moldurava-os e anexava-os nas paredes. Como as condições estão cada vez mais difíceis economicamente, a busca pelo ter se tornou um privilégio de poucos e as pessoas descobriram que construir aparências é mais fácil e barato que ter. Então, quando um candidato a um emprego vai passar por uma entrevista ele se esforça em dar uma boa aparência e falar com eloqüência, quando o entrevistador está buscando provas nas aparências de sua competência. Ele acaba conseguindo o emprego pela aparência de competente. Sem definição da identidade, o homem em crise não consegue ver outra opção senão se esforçar parecer ser alguém que gostaria ser. Se sente importante porque tem um monte de livros em casa, um belo carro, uma bolsa da moda, um cargo de confiança... e acaba gastando a vida com frivolidades. Este mundo do parecer também é do perecer. Enquanto a maquiagem envelhece, se busca por uma nova. Parecer faz esquecer quem é.

As impressões por si só não oferecem a segurança que precisamos. Inclusive o julgamento pelas aparências frequentemente nos frustram porque as pessoas nem sempre parecem ser quem são.

É uma armadilha negar ser quem é. Pior é cobrir-se com aquilo que é passageiro, porque no fim, o que resta é você. Diante de Deus, nada está encoberto. Não tema dizer a Ele o que passa em seu coração. Ele vai te ouvir e te ajudar se for sincero. O jogo do esconde-esconde uma hora perde a graça. Falar algumas palavras em inglês pode fazê-lo parecer culto para as pessoas, mas somente dominar a língua o faz ser capaz.

Muita gente cai na armadilha do parecer por se sentir envergonhada de quem é porque acredita que a felicidade está acessível apenas aos "perfeitos". Não perceberam ainda beleza nas singularidades e que as pessoas não são inferiores ou superiores, apenas diferentes. O que o deixa bonito e o faz admirado é devolver um dinheiro achado que não te pertence, é pagar suas contas ao invés de optar em comprar uma roupa da grife só para manter a pose de gente "legal". O que o faz bonito é se satisfazer com sua beleza interior, seu coração humilde, seu comportamento sincero e suas palavras doces. Tem muita gente que despreza isto, luta com a própria vida e até perde amizades para preservar o cargo que tem; parece ser feliz lá, mas na realidade, está perdido no meio de falsas exigências sob pena de ser exposto além das aparências. Uma hora se cansa e a "casa cai".

No mundo há mais de seis bilhões de pessoas, entre elas existe você. Pode optar viver onde ninguém o encontrará, ainda sim, continuará sendo você porque não se pode perder alguém tão especial. 

Embora esta reflexão ajude a sentir-se cheio de fé, compreenda que nossa identidade só pode ter uma referência: o caráter de Cristo. Substituí-Lo por outra pessoa dará à sua vida uma direção para longe dEle e de si mesmo. Pode-se admirar pessoas e aprender muito com elas, pode-se ter diante de sua vida exemplos que irão te inspirar a viver uma vida melhor, mas nunca colocá-las acima da referência de Cristo. 

Deixe Jesus Cristo encher seu coração do Seu amor a partir de hoje, este nobre sentimento te ensinará a amar-se e também doar amor. Não importa o que passou, o que fez de errado ou danos que considere ser irreparáveis. Deixe de se culpar e comece hoje uma nova vida, direcionada à restauração da alma e dos relacionamentos quebrados, a começar consigo mesmo. Esta crise não se resolve só, busque ajuda com alguém capacitado e da sua confiança para encontrar em Deus a cura das feridas em seu coração. 

Mesmo que ninguém diga isto, você é muito especial além da sua aparência, pois o que o faz lindo é seu sorriso, sua maneira respeitosa de tratar os outros, sua expressão de amor por sua família, sua fidelidade, generosidade praticada com os mais desfavorecidos, suas palavras de ânimo ao que sofre em tempos de dor, sua disposição para perdoar, sua indignação com intenções injustas, sua fuga de situações suspeitas de imoralidades, sua humildade para reconhecer o erro ao invés de procurar culpados, sua paciência para esperar o momento certo para as coisas certas, seu coração bondoso... Esta identidade é um bem precioso. 

Oro para que possa aceitar-se e ser cada dia mais cheio de felicidade consigo mesmo.

Ericson Martins

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Por Que Temos Tantas Dificuldades para Cumprir Nossa Missão ?


          Você já deve ter ouvido dizer que o Brasil em décadas anteriores foi um berço, mas que hoje é um celeiro missionário. Você sabe para que serve os celeiros ? O Dicionário Alpheu Tersariol define para nós : “Casa em que se ajuntam e guardam cereais”. Creio que os missionários estão, de fato, sendo enviados, mas em grande quantidade para o interior do país, onde realmente Deus tem feito maravilhas. Por outro lado estamos nos acomodando em cuidar de nós mesmos. Esta foi uma situação comum na história de Israel e, talvez, mais evidente no N.T. entre os primeiros cristãos em Jerusalém.

          Há aqueles que acreditam que ainda temos dificuldades para enviar missionários ao interior do Brasil onde há carência de igrejas fortes, imaginem então a dificuldade que existe para os desafios transculturais.

          Gostaria de levá-lo (a) a refletir comigo sobre algumas dificuldades que enfrentamos como Igreja Brasileira para, sem deixarmos a atenção da responsabilidade local, sustentarmos atividades evangelísticas entre outras nações na mesma medida e na mesma força com que fazemos em nossa volta, principalmente através do importante e resultante trabalho de células que temos feito.

1. Problema Histórico
          Após uma forte perseguição na França em 1555, um grupo de franceses cristãos veio para o Brasil, mas como os jesuítas exerciam influência decisiva aqui, conseguiram expulsar o grupo de missionários da Baía de Guanabara no Rio de Janeiro. 69 anos depois vieram os holandeses, cristãos, irmãos nossos, cheios de fé, conquistaram a Bahia, Pernambuco e parte da costa brasileira, mas como o Governo Holandês não viu importância na América do Sul, abandonaram seus missionários e com a pressão da Igreja Católica, também foram expulsos do Brasil. Este mesmo grupo foi para os EUA e fundou a cidade de Nova York. Em 1855, 300 anos depois do primeiro grupo, um missionário chamado Dr. Robert Kalley chegou ao Rio de Janeiro dos EUA e estabeleceu ali uma base. Foi perseguido, mas protegido pela legislação do Império sobreviveu e abriu portas para outras Denominações protestantes e Missões que começaram a chegar no Brasil. O trabalho do Dr. Kalley cresceu e alcançou, além do Brasil, a Argentina e Peru. Após sua morte sua esposa abriu uma Missão chamada União Evangélica Sul Americana.

          A Igreja se estabeleceu pelo trabalho missionário e os líderes desta Igreja foram formados pelo exercício evangelístico, o famoso “corpo-a-corpo”, mas do que acadêmico.

          A Igreja Brasileira tem aproximadamente 160 anos. Seus fundadores foram missionários de outros países que vieram e em meio às perseguições, riscos e mortes, plantaram igrejas fortes que promoveram o nascimento de outras. Apesar desta história, no Brasil, o tema “missões”, especialmente no contexto da responsabilidade transcultural a exemplo de seus fundadores, nasceu em aproximadamente 40 a 50 anos. Foram, talvez, mais de cem anos em que a Igreja Brasileira, em todo seu ser, esteve voltada para suas necessidades internas e nacionais. 

          A cosmovisão da Igreja foi construída durante um século para afirmar que sua localização nacionalista e geográfica tem mais urgência que qualquer outra nação, deste pensamento surgiu a má interpretação de Atos 1:8 que diz : “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, e somente quando Jerusalém for totalmente alcançada, deverão ir a toda Judéia, Samaria e até aos confins da terra”, quando na verdade diz : “Sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda Judéia, Samaria e até aos confins da terra”. Muitos preferem ignorar “tanto ... como”.

          A falha não foi dos fundadores da Igreja Brasileira, mas dos seus sucessores que não compreenderam as razões teológicas da vontade de Deus que trouxeram missionários ao Brasil. Hoje, há uma persistência consciente de que enquanto houver perdidos no Brasil, a prioridade é o Brasil, algo que Jesus não nos ensinou. Talvez você entenda porque tantos missionários brasileiros sofrem tanto para saírem em cumprimento da ordem estabelecida em At. 1:8. Por não realizarmos ainda como deveríamos o trabalho missionário, estamos afirmando, talvez de forma inconsciente, com nossos próprios lábios que “o Brasil é um celeiro missionário”, um país que retém seus missionários guardados. As igrejas estão cheias deles.

2. Problema Cultural
          O etnocentrismo é mais que um conceito missiológico e antropológico. Etnocentrismo coloca-nos no centro das prioridades, interesses e urgências e por isto é uma forte barreira para sermos recebidos por outras culturas na tarefa da evangelização mundial.

          Crescemos aprendendo uma língua, relacionando com pessoas e por elas aprendendo os limites da comunicação direta e indireta, aprendemos as bases de confiança e respeito mútuo, nossa personalidade foi constituída com base na educação patriarcal e dificuldades próprias dentro das acomodações que nos deram e dão condições de superá-las, patrimônios materiais de pequenos e grandes valores adquiridos pelas oportunidades do país, nosso organismo se adaptou a um sistema alimentar e climático capaz de certa imunidade, além da liberdade constitucional e a definição dos significados para certo e errado. Estas e outras razões são suficientes para super valorizarmos nossa cultura, entendendo que nenhuma outra oferecerá o que necessitamos para sentir-nos seguros e acomodados. Estas são verdades culturais existentes em qualquer cultura, mas é um problema porque não falamos outras línguas e a comida não é a mesma que estamos acostumados a aceitar, como um exemplo. Entrar em outra nação é entrar num campo desconhecido que esconde surpresas. É um problema também porque entendemos que nossa cultura é melhor em todos os sentidos, e, portanto, nos acomodamos nela. Enquanto super valorizamos nossa cultura de vida menosprezamos as demais. Por mais que tenhamos motivos para amar nossa cultura, não podemos classificá-la como a melhor, apenas como diferente dentro de uma visão abrangente.

          Temos muitas dificuldades para cumprirmos nossa missão, também, por enfrentarmos problemas culturais, problemas estes que atingem nossa base de fé e doutrina. A exemplo disto, somos freqüentemente frustrados pela tentativa de convencer autóctones a crer como cremos, ao invés de crer em que cremos. Para nossa cultura, o conceito, por exemplo, aplicado ao que significa imoral, para outra não há nada de imoral e sofremos porque nos recusamos a ver culturalmente os valores, respeitando padrões éticos locais dentro da cosmovisão do povo a ser alcançado.

3. Problema da Auto-Estima 
          É provável que se entenda que este deveria estar relacionado ao tema do problema cultural, mas foi uma tentativa de destacá-lo. O problema da auto-estima é um problema que envolve todo o conjunto de temas que estão sendo tratados.

          Países que foram colonizados preservam o estigma de que são inferiores como nações em vários sentidos, como por exemplo : senso de incapacidade ao desenvolvimento, falta de criatividade para executar projetos próprios e de forma autônoma, sentimentos fatalistas e a famosa dependência comercial e econômica. 

          Esta é uma questão histórica e cultural que vem transcorrendo épocas e alcançado nossos dias, nossas vidas e como vivemos. Transferimos para os relacionamentos quando nos deprimimos ao ver o sucesso dos outros, transferimos para a nossa criatividade quando copiamos o que os outros fazem, escrevem e falam, transferimos para o ministério quando apenas damos continuidade ao que o outro plantou, transferimos para a responsabilidade missionária quando só queremos investir em missionários que estão ou irão para fora do Brasil e de forma preconceituosa ignoramos e perseguimos com regras duras aqueles que são vocacionados para o interior do país, transferimos para os vencedores quando passamos uma vida inteira somente os aplaudindo, transferimos para os estudos quando somos reprovados e nos conformamos, transferimos para as profissões quando não alcançamos êxito e aceitação e desistimos ... transferimos para Deus quando Ele nos chama e dizemos ser incapazes através de uma conduta omissa e silenciosa, sem uma resposta verbalizada e visivelmente prática.

          Já testemunhei inúmeros estrangeiros chegando no Brasil e serem recebidos como celebridades como se nós sem eles não fôssemos nós. Já cansei de ver igrejas investindo muito dinheiro na vinda de estrangeiros para ministrarem quando poderiam usar brasileiros que, em comunhão com Deus, seriam mais profundos e sábios em suas ministrações, mas porque o estrangeiro tem um sotaque diferente valorizamos mais para dar um toque de internacionalidade aos nossos eventos.  

          O “de fora” tem mais importância para nós, talvez por isto somos tão desunidos, não apoiamos uns aos outros, apesar de estarmos indo a direção do mesmo objetivo.

          Há um tempo atrás, apoiando um almoço cujo objetivo era captar recursos que seriam investidos em um missionário na África descobri que a igreja tinha um missionário que estava em pleno esforço para conseguir apoio financeiro e cumprir sua vocação indo à África e lá desenvolver seu ministério. Procurei então a pessoa responsável pelo almoço e incentivei-a a investir o dinheiro arrecadado no missionário da igreja que após treinamento estava em fase de levantamento de sustento e precisando de apoio. A resposta foi decepcionante. Disse-me que o propósito era de somente enviar para quem estava na África e não para quem não estava. Perguntei novamente se sabiam a quem destinariam então. A resposta foi ainda mais decepcionante que a primeira : não sabiam. 

          Quando nossos missionários estão fora do Brasil alguns, recebem apoio financeiro, mas quando voltam, a maioria perde o apoio por estar no Brasil, próximo a amigos e famílias, mesmo que seja por férias, tratamento médico ou reciclagem. Só sentimos que devemos apoiá-los financeiramente e moralmente quando estão em outra nação, como se no Brasil eles não representassem nenhum valor e utilidade ministerial relevante.

          Necessitamos reconhecer que em Deus somos fortes e capazes de provocar grandes diferenças por iniciativas centralizadas no Seu propósito como verdadeiros agentes e emissários de Sua santa Palavra, seja indo ou apoiando responsavelmente aqueles que estão na “linha de frente da batalha” contra os governos de Satanás neste mundo.

4. Problema Espiritual
          Quando nos posicionamos para fazer missões, nos posicionamos contra as forças espirituais que atuam neste século para tentar impedir o crescimento do Reino de Deus. Não há outro caminho, ou avançamos para fazer recuar o reino de Satanás, ou recuamos e o seu reino cresce.

          Minha análise desta batalha espiritual não se detém somente na realidade espiritual, mas nos meios através dos quais esta se evidencia no mundo natural. Partindo deste ponto de vista e analisando as influências desta batalha da Igreja contra o reino de Satanás no mundo, “recuamos” ou “avançamos” de acordo com o nível de obediência à vocação de Cristo.

          Creio que temos perdido grandes oportunidades. Creio que precisamos dar passos importantes em direção a um avivamento começando a ser sinceros conosco, na verdade, muitos não crêem que missões é o plano de Deus para o mundo, só que confessar isto é duro demais, então dizemos que missões é o plano de Deus mas não estimulamos as pessoas a crerem a ponto de se envolverem. A maior prova desta falta de fé é o que fazemos com as finanças. Segundo o sistema capitalista, ninguém investe onde não se pode receber lucros. Nossas vidas sofrem esta influência diariamente e a situação fica ainda mais grave quando transferimos para a Igreja. Se há uma necessidade material local e a igreja não tem reservas no caixa, fazemos de tudo, são campanhas, ofertas especiais, cantinas, desafios recheados de versículos, etc., mas quando se apresenta um missionário com necessidade de ser enviado para o campo sob nossos cuidados financeiros, a situação muda completamente e o que os missionários ouvem são argumentos comuns à maioria : “Estamos com salários atrasados”, “temos muitas contas à pagar e não temos tido reservas”, “nossa arrecadação caiu”, etc. Se é para investir numa quadra de esportes, reformas luxuosas ou na construção de um acampamento, somos capazes de fazer de tudo, menos em favor de projetos missionários porque nos falta fé, esperança para os povos. Uma quadra de esportes, reforma no templo, um acampamento, etc., são necessários para qualquer igreja, o problema é que muitas vezes usamos isto como desculpas para nos ausentar da responsabilidade financeira e prioritária que temos com a obra missionária. Os relatórios financeiros das igrejas podem denunciar a ordem de prioridades exercidas. 

          O coração de Deus anseia por nós. O Seu amor é indescritível à compreensão do homem. Somos incapazes de compreender plenamente Seu sentimento. O pecado nos tornou inimigos da Sua natureza, fizemos e fazemos o que Ele repudia. Grande foi nosso pecado, miseráveis somos, indignos de estar na santa presença de Deus, desconhecidos éramos de natureza, mas Ele nos aceitou, nos amou, nos perdoou, de graça nos concedeu através do Seu Filho a salvação eterna, encheu nossos corações do sentimento de paz, milagrosamente restaurou uma comunhão que estava definitivamente perdida, curou nossas chagas e demonstrou o que Ele faz por aqueles que O aceitam. Tudo o que Deus fez por nós, Ele quer fazer com outros, seja do Brasil ou entre outras nações. O problema é que muitos, e infelizmente a maioria pessoas de influência na Igreja, não crêem nisto e pensam que as nações merecem ir inteiras para o inferno por não crerem em Jesus. Outros pensam que porque Deus reservou salvação somente aos eleitos estão “cruzando os braços” e vivendo inteiramente na apatia justificando que todo esforço humano será inútil para mudar a história na presciência de Deus. Não fazemos missões ainda como deveríamos por enfrentarmos problemas com nossa fé também.

          Pense comigo : o Manual Intercessão Mundial, Edição Século XXI (2003) diz que em toda América do Sul no ano 2000 havia 36.900.030 evangélicos para 10.192 missionários dela enviados ao seu interior e nações fora dela. Isto significa que havia nada mais e nada menos que 3.611.297 de cristãos evangélicos para cuidar de cada missionário. Ainda sim é tão popular missionários representarem a dificuldade de fazerem o que é de responsabilidade de todos. Apesar de fazermos muita coisa, não conseguimos realizar o óbvio, o básico, o que justifica nossa permanência no mundo após nossa salvação que é sermos luz para as nações. Nos falta fé para crer que há salvação para outras nações e que vale a pena todo esforço e investimento porque nada se compara ao valor de uma vida salva.

5. Problema Moral
          O empreendimento missionário só é possível por aquele que vai e por aquele que envia. A falta de um dos lados certamente compromete, ou aquele que foi, ou aquele que enviou.

          Muitas vezes os missionários sentem falta de igrejas visionárias que poderiam investir em suas vidas. É comum encontrar missionários que já tenham enfrentado desentendimentos com suas igrejas porque não foram fiéis no compromisso de sustentá-los, mas é importante refletir também porque estas igrejas são tão falhas. Creio que a falta de temor a Deus é um grande fator, mas uma pequena parte de missionários também não são honestos com as igrejas que os apóiam, o que causa indiferença contra muitos. Nenhuma igreja vai querer investir em quem despreza valores tão importantes como o vínculo com quem o enviou (não me refiro a vínculos denominacionais).

          Tenho bom relacionamento com vários pastores durante muitos anos em meu ministério direcionado ao trabalho missionário. Tenho ouvido dos pastores testemunhos tristes sobre a conduta de alguns missionários justificando suas antipatias, não contra o propósito missionário, mas contra uma pequena minoria que pelo mal testemunho tem provocado sérios prejuízos àqueles que de fato são vocacionados e merecem apoio. Todos nós devemos nos unir e combater esta minoria, discernindo-os sabiamente pelos frutos e testemunho que outros dão por onde passam. Já vivi, já vi e já ouvi vários testemunhos queixosos contra o desprezo que muitas igrejas têm à tarefa missionária, tanto quanto aos missionários, mas neste tempo, a quantidade de missionários que já testemunhei mentir através de seus relatórios para sustentar a impressão de que estão trabalhando muito quando na verdade estão “escondidos”, sendo inconstantes, indo de um lado para o outro para evitar que as pessoas se aproximem e percebam o descompromisso com o que se propôs a fazer, só escrever e só ligar para sua igreja em busca de dinheiro e a séria falta de comunicação constante por informativos e relatórios, de fato são evidências que muitos apresentam às igrejas como se elas não percebessem.

          Jesus disse que a seara é grande e poucos são aqueles que trabalham nela. Depois Ele orientou que rogássemos ao Senhor da seara para que enviasse trabalhadores à Sua seara. Estes trabalhadores não podem decidir por si mesmos irem ao campo, somente Deus podem enviá-los, porque, sabendo das carências no mundo, quando Ele envia, envia pessoas da qualidade certa. O problema é que muitos ignoram o chamamento de Deus e se envolvem por conta própria na obra missionária sem avaliarem os prejuízos que estes sem a bênção de Deus através da Igreja causará ao trabalho e à vida das pessoas. Missões infelizmente é como uma guarida para alguns, um lugar onde se pode esconder das responsabilidades na vida por medo de enfrentá-las; se envolvem na tarefa missionária porque não conseguem resolver suas dificuldades familiares, conseguir um emprego, oportunidade em uma Faculdade, etc.. Pessoas que agem assim estão em toda parte, em missões também. A falta da vocação de Deus, testemunho aprovado, vínculo forte com uma igreja (mais do que com qualquer Organização Missionária) e supervisão rigorosa das atividades missionárias no campo, são responsáveis por tantos problemas de caráter, improdutividade ministerial e péssimo exemplo para aqueles irmãos voluntários e igrejas que hoje poderiam estar seriamente comprometidas em apoiar missionários moralmente, espiritualmente, logisticamente, financeiramente e ministerialmente. Existe, de fato, pouquíssimo investimento destas áreas na obra missionária geral como na vida pessoal e familiar dos missionários, mas a falha também parte de alguns que não são sérios e honestos com as igrejas em seu caráter moral.


          Temos ainda muitas dificuldades para cumprirmos nossa missão neste mundo. Escrevi esta reflexão cansado de viver, ver e ouvir os mesmos problemas sem falar nada, e com dor em meu coração por ver tanta oportunidade dada por Deus se perdendo freqüentemente, mas por outro lado tenho fé e esperança no dia da vinda do Senhor Jesus. Milhares e milhares de pessoas irão se prostrar diante d’Ele confessando-O ser o Filho de Deus, gente como nós, de toda parte, de todas as etnias, falantes de línguas que nem imaginávamos existir, juntos, tendo a mesma visão da glória de Deus sobre Seu Filho.

          Quando medito na vinda de Jesus, sinto-me ainda mais desafiado na obra missionária, a maior e mais valiosa riqueza que poderemos receber será olhar nos olhos do Redentor e ver neles a alegria de ser (Ele) glorificado por outros que um dia pudemos alcançar com a pregação do Evangelho.

          Apesar dos problemas, o que importa é a responsabilidade pessoal, se você pensa assim, certamente está no caminho certo.

Ericson Martins
contato@projetoperu.com




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